Vodafone Paredes de Coura 2024 – não foram só 4 dias

Um dos meus elementos preferidos do Vodafone Paredes de Coura, comparando com todos os outros festivais de música nos quais já estive é toda a programação que existe durante e alguns dias antes do festival propriamente dito. Desde o Sobe à Vila ao Jazz na Relva, dá a oportunidade a quem acampa no habitat natural da música de ouvir alguns dos projetos mais entusiasmantes do paradigma musical contemporâneo português. Destaco aqui 3 dessas performances que pudemos assistir desde o dia 11 de agosto.

Marquise – a próxima grande banda do rock alternativo português

Quem me conhece pessoalmente sabe que desde novembro do ano passado eu não me calo sobre o EP de estreia da banda portuense que mais me entusiasmou nos últimos tempos. Falo dos Marquise, que entre os prémios que recebeu no Festival Emergente no final do ano passado, semanas e semanas com a sua música em destaque na Antena 3 este ano, e passagens em vários festivais de música portugueses de renome este verão, em especial o NOS Alive, foi capaz de conquistar, merecidamente, uma ascensão meteórica desde que me cruzei com o seu trabalho. Foi, então, a cereja no topo do bolo deste seu percurso a sua inclusão no Sobe à Vila desta edição do Paredes de Coura, e igualmente, de um excelente warm-up para o festival em si.

Só a proeza dos 4 Ms que compõem os Marquise (Mafalda, Miguel, Miguel e Matias) em cada um dos seus instrumentos seria suficiente para valer a pena ouvi-los ao vivo. Mas, mais do que isso, a forma como cada uma das suas músicas está escrita faz parecer que não estamos a falar de uma banda com pouco tempo de existência, e muito menos de elementos que estão todos nos seus vintes (mais facilmente parecem músicos com 20 anos de carreira). Como se isso não bastasse, trazem o seu espírito irreverente e jovem que os diferencia de maior parte dos projetos de grande qualidade que existem neste espaço da música portuguesa. Nada nisto era novidade para mim, está claro, tendo sido este o terceiro concerto do grupo que tive o prazer de assistir, e posso garantir que já na próxima oportunidade estarei no meu quarto, porque realmente não cansa ouvi-los a tocar, não só nos dando a oportunidade de ver as suas músicas já lançadas ganhar outra dimensão, como de ouvir todas aquelas que já vão preparando para um potencial LP de estreia, que, surpreendentemente, ainda melhor escritas e compostas parecem do que o que já vimos até agora deles. Não se enganem ou sequer duvidem por um segundo: tiveram em Paredes de Coura e têm ainda a oportunidade de conhecer a próxima grande banda do rock português neste preciso momento, e eu não me cansarei de ficar estupefacto com a pura destreza que todos eles demonstram sempre que os vejo num palco.

Yakuza – até parece fácil

Os Yakuza são outro grupo que ficou comigo desde que os conheci, neste caso há já uns anos atrás, no Centro de Congressos do Estoril e no festival ID NO LIMITS em 2022, que infelizmente é também a sua última edição até à data. Foi numa literal sala de reuniões, em que a banda batia quase com as suas cabeças no teto, que me apaixonei pelo seu jazz, e mais do que isso, pela forma exímia como improvisavam e nos davam uma experiência irrepetível. Acabei por me aperceber à força de que, além de não poder experienciar exatamente o que tinha ouvido naquela noite fria de fevereiro no Estoril, ia também ter dificuldade em apanhá-los em palco nos anos seguintes. Exceto a sua aparição no Jardim Sonoro nesse mesmo ano, até há 5 meses não teria a oportunidade de ver o grupo a tocar nenhuma outra vez. Por isso, é apenas lógico que o meu entusiasmo pela sua presença no Jazz na Relva nesta última edição do paredes fosse gigante, especialmente depois do lançamento dos seus dois últimos singles, “Penha” e “Batota”, algum do melhor trabalho que já vimos do grupo na sua carreira.

O problema de ter altas expetativas sobre qualquer concerto é que com alguma probabilidade sairemos desapontados… se a banda não se chamar Yakuza. A verdade é que não houve nenhuma ocasião nos 4 concertos que vi, incluindo o último, em que pudesse ter pedido mais, sem ser em relação à duração destes. Os Yakuza fazem parecer fácil pegar nos instrumentos e desconstruir o seu trabalho, levando-nos numa viagem dentro das suas cabeças e do seu imaginário rico e impossivelmente funky, enquanto não aparentam fazer mais do que se divertir consigo próprios. Fazem-no, pura e simplesmente, através da qualidade de qualquer um dos membros da banda, que torna muito difícil escolher um elo mais fraco. Começamos com os dois que se mantiveram na banda desde a sua criação, Afonso Serro nos teclados, que cria as tapeçarias sonoras que dão direção a cada música, e AFTA 3000 no baixo, que injeta vida em tudo aquilo que vai saindo do PA como se a bassline estivesse a recitar poemas. Adicionam se a eles dois outros elementos, a já cara familiar de Pedro Ferreira na guitarra, que guia o grupo por curvas e contracurvas como um perito do drift, e a adição mais recente à sua composição, Pedro Nobre, que vai lançando os obstáculos na estrada em que fazem o seu caminho, através da capacidade que tem de adicionar sincopação a qualquer altura da sua performance com a bateria. Tenho extrema dificuldade em descrever qualquer uma das performances dos Yakuza porque apenas uma coisa é certa: é ouvir para querer. Do meu lado, sou já completamente devoto à mestria sagrada que demonstram seja ao vivo ou nos seus discos, e fico apenas infeliz com o aparente facto de que as oportunidades que tenho de entrar dentro do seu mundo sejam tão reduzidas.

Girls 96 – Paredes de Coura “esteve-se a passar”

Girls 96 chega no ano do indie sleaze e do brat summer e talvez por isso mesmo soe tão fresco e novo, mesmo partilhando pontos de partida semelhantes com as duas das mais predominantes trends de 2024. Paloma Moniz e Ricardo Gonçalves revelaram-nos este projeto em fevereiro deste ano, que assume contornos tão simples e próximos da primeira geração nascida online que inevitavelmente vai puxando cada vez mais netizens, mas que os prende com toda a nuance que cobre o trabalho deles e o seu primeiro EP, 1996. Deram-nos música no primeiro dia do Sobe à Vila em Paredes de Coura, abrindo, e de que maneira, a pista de dança.

O synth pop, o y2k e a feminilidade alimentam-se uns dos outros na música de Girls 1996, e num concerto que foi como olhar para dentro de um estúdio ou de uma sala de ensaio, não tendo por isso menos qualidade. Criou-se em mim quase um sentimento de distanciamento entre o que se passava em palco e à minha volta na plateia, remetendo-me imediatamente para a dicotomia do real e do virtual, ou mais para um espaço de discoteca do que necessariamente de música ao vivo, o que me pareceu totalmente propositado. Não é por acaso que Paloma Moniz é co-criadora do coletivo everyone is a girl, que se debruça precisamente sobre a performance que está inerentemente ligada com a existência de cada um no conceito do digital: o seu EP de estreia, 1996, reflete precisamente isso. Basta olhar para a lírica extremamente catchy com que o seu maior sucesso até à data, “Ainda Importa”, começa (“Estou me a passar/Todas as miúdas são mais giras do que eu/Mais interessadas do que eu, mais da cidade do que eu”), para entender a sua relação com a experiência inevitável de um jovem adulto nos dias que correm, e perceber quão bem o fazem. Os Girls 1996 não são espetacularmente diferentes ou melhores que outros grupos aos quais os podíamos associar, mas através da simplicidade e da meta-ironia que têm grande facilidade em executar foram capazes de já deixar uma marca notável em muitos os que estiveram presentes neste concerto. O seu som fala ao seu público mais pertinentemente como nunca, e quando eventualmente o fã de música comum se fartar desta ressurgência do pop eletrónico no mainstream, não tenho dúvidas que os Girls 1996 se manterão relevantes e com casa cheia sempre que dão um concerto.

Texto: Francisco Galante
Fotografia: Vodafone Paredes de Coura - Site Oficial

6 months ago

vodafone-paredes-de-coura
marquise
yakuza
girl96